O infinito raramente se apresenta de forma grandiosa.
Quase sempre ele se revela através daquilo que permaneceu quando todo o excesso desapareceu.
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Vivemos cercados por excesso.
São imagens, informações, opiniões e estímulos disputando nossa atenção o tempo inteiro. Aos poucos, aprendemos a associar complexidade à profundidade, como se aquilo que acumulasse mais elementos fosse, necessariamente, mais significativo.
Na arte, essa lógica nem sempre se confirma.
Existe um momento silencioso durante o processo criativo em que percebemos que uma obra já não precisa de mais uma linha, mais uma cor ou mais uma forma. Ela precisa justamente do contrário.
Precisa de espaço.
É nesse instante que começa um exercício pouco intuitivo: retirar.
Retirar aquilo que explica demais.
Retirar aquilo que compete pelo olhar.
Retirar aquilo que existe apenas porque poderia existir.
Cada elemento que desaparece faz surgir uma pergunta inesperada:
O que permanece quando quase tudo deixa de estar presente?
Talvez seja essa a verdadeira matéria de uma obra.
Não aquilo que foi acrescentado, mas aquilo que continua existindo mesmo depois que todo o excesso desaparece.
A simplicidade não é a ausência de complexidade.
Ela é a recusa do desnecessário.
Por isso ela exige tanto. Quando restam poucos elementos, nenhum deles pode estar ali por acaso. Cada forma passa a sustentar mais significado. Cada vazio deixa de ser um intervalo e passa a fazer parte da linguagem da obra.
É curioso perceber que, quanto menos uma obra determina, mais ela convida.
Quando tudo já está explicado, resta apenas observar.
Mas quando algo permanece em aberto, o observador deixa de ser espectador e passa a participar da experiência. A imaginação começa a construir aquilo que a obra apenas sugeriu.
É nesse encontro que a arte deixa de pertencer ao artista.
Talvez seja por isso que o infinito raramente se revele através do excesso.
Ele costuma aparecer quando percebemos que uma única forma pode conter inúmeras possibilidades.
Um círculo pode ser um planeta.
Pode ser um portal.
Pode ser um eclipse.
Pode ser um olho.
Pode ser apenas um círculo.
Nada muda na forma.
O que muda é a consciência de quem a observa.
Talvez a simplicidade seja justamente isso: criar o mínimo necessário para que o máximo aconteça dentro do outro.
A arte não precisa oferecer respostas para provocar uma experiência profunda.
Às vezes, basta retirar o suficiente para que aquilo que nunca poderia ser desenhado encontre espaço para existir.
Porque existem dimensões que não se alcançam pelo acúmulo.
Elas só se revelam quando o essencial permanece.


